Produtor e compositor, António Vale da Conceição gravou dois EP intitulados At Your Service, Ma’am, numa exuberância sonora alimentada a cinema, televisão, pop e soul.

Nuno Pacheco 

In Público Ipsilon

14 de Dezembro de 2022, 7:30



Quem tiver ouvido falar dos Turtle Giant, trio formado há onze anos em Macau, saberá que um dos seus músicos se aventurou mais recentemente numa carreira a solo. O seu nome é António Vale da Conceição e este ano gravou dois EP intitulados At Your Service, Ma’am (1 e 2), o mais recente dos quais chegou às plataformas digitais em Dezembro, precedido por canções como Poison in a glass ou Slower, aqui com videoclipe. Esta quinta-feira vai apresentá-lo em concerto na rádio (SBSR.FM), para – diz – mostrar o que pretende ser o seu trabalho, a sua assinatura.


SLOWER

Nascido em Macau, em Agosto de 1985, de pais portugueses (a mãe nascida no Porto e o pai em Macau), António Vale da Conceição tinha 14 anos quando a região voltou à soberania chinesa, no dia 20 de Dezembro de 1999. Ali cresceu e estudou até que, aos 18 anos, em 2003, viajou até Portugal para fazer a Faculdade, regressando a Macau depois de acabar o mestrado. “O lado da minha família paterna é toda de Macau, temos uma genealogia um tanto ou quanto complexa do lado oriental, mas também com as minhas raízes aqui do lado da Europa”, diz ele ao PÚBLICO.

Mas não foi apenas o lado familiar que o fez voltar a casa, explica António: “Tive a infelicidade, ou felicidade, de acabar o curso mais ou menos numa altura em que o Passos Coelho nos mandou a todos ir à fava, ir embora, e isso coincidiu também com o crash mundial. Então as coisas fizeram com que voltasse a casa, a Macau.” Até que, em 2019, mesmo antes da pandemia, rumou de novo a Portugal e instalou-se no Porto, onde agora vive. “Foram outras razões que não a pandemia, felizmente, razões profissionais, que me fizeram voltar a Portugal”.





Tudo o que alimenta hoje a sua música, a solo e também com os Turtle Giant, veio da infância. E nisso misturam-se desenhos animados, cinema, MTV, rock, pop e soul, numa panóplia de sons e imagens. “Até aos anos 90 não tínhamos televisão portuguesa, por isso víamos televisão de Hong Kong. Como Hong Kong era uma colónia britânica, passava muitas séries inglesas. Víamos séries da Thames como Danger Mouse, Postman Pat [ambas desenhos animados], a Rua Sésamo na versão americana… Tirando isso, víamos também desenhos animados chineses ou japoneses dobrados em chinês. Falávamos normalmente três idiomas: português, inglês e chinês.”

A música, que já povoava essas séries, chegou-lhe depois por diversas vias. “Memórias puras e duras de procurar música, de querer ouvir música, vinham sobretudo da televisão, da MTV. Macau não era um foco de emissões radiofónicas variadas. Ouvia-se a Rádio Macau, que tinha uma estação em português e outra em chinês, e a estação portuguesa passava música que na nossa opinião estava bastante datada. E nós queríamos ouvir grunge, rock’n’roll, Pearl Jam, Alice in Chains. Por isso, virávamo-nos para a televisão, para a MTV. Que também não promovia aquilo que queríamos, mas as Spice Girls ou as Christinas Aguileras desta vida.”


Lemonheads e música para filmes

A família foi outra fonte de conhecimento musical, com sinais contraditórios. “A minha mãe trabalhava no Instituto Cultural, entidade que se dedicava à promoção e ao desenvolvimento de eventos culturais. Um deles era o Festival Internacional de Música, onde se traziam muitos artistas de Portugal e dos PALOP, com uma panóplia de sonoridades muito diferentes: Tito Paris, Cesária Évora, Bonga, Rui Veloso, Xutos, Ritual Tejo. E pela primeira vez comecei a ouvir as bandas de Macau, que eram bandas de liceu com malta de gerações muito à frente da minha, mas que tocavam música que eu queria ouvir. Os meus pais punham-me a ouvir Beatles, Simon & Garfunkel, Peter, Paul & Mary, imensos nomes do folk americano. Então, quando umas pessoas me apresentaram os Lemonheads, foi como se me abrissem uma porta.”

E essa “porta” já trazia consigo imagens: “A minha formação foi gostar de cinema. Estudei cinema e televisão, numa vertente de realização e de argumentista, mas o meu trabalho tem vindo a desenvolver-se com especial inclinação – e muito gosto – a fazer música para filmes. É uma dimensão do cinema que muitas vezes é negligenciada, mas a música é um dos factores mais enriquecedores do cinema, quer haja música ou deliberadamente ausência de música.”




O ano de 2011 foi fulcral. “Nesse ano conheço o Fred e o Beto, que tinham chegado do Brasil com o projecto Turtle Giant e andavam à procura de mais alguém para compor a banda. Foi assim que eu entrei. Curiosamente, também os Turtle Giant andaram ligados ao mundo do cinema e da televisão.” António entrou como baixista, sendo os três membros do grupo multi-instrumentistas e também vocalistas, já que todos eles cantavam nas gravações e ao vivo. Os Turtle Giant já tinham lançado um álbum em 2009, Feel to Believe, do qual canções como Sunlight entraram em séries televisivas norte-americanas como Ghost Whisperer e 90210. O mesmo sucedeu com o EP seguinte, All Hidden Places (2011) no qual António já participou, que além de tocar nas rádios dos EUA, entrou na banda sonora do filme 10000 Saints, de Ethan Hawke (estreado em 2015), lhes proporcionou espectáculos nos Estados Unidos e Canadá.

O segundo álbum dos Turtle Giant, Many Mansions part 1 (2015), serviu igualmente para bandas sonoras de séries televisivas norte-americanas. O tema Georgie entrou na série Super Girl da CBS e da CW (agora na Netflix) e Orange Grape na série Chicago Fire, da NBC. O mesmo caminho seguiria António Vale da Conceição, que em 2021 lançou um primeiro álbum a solo intitulado Four Hands Piano, com “um conjunto de temas para filmes não utilizados recuperados da gaveta”, enquanto compunha música para vários filmes de António Caetano Faria (Rutz, O Cravo, INA, A Beautiful Game) e para um documentário que ele próprio realizou em 2021, Beyond de Spreadsheet: The Story of TM1, em torno da vida do cientista cubano Manuel “Manny” Perez que, exilado nos EUA, criou em 1983 uma base de dados funcional chamada TM1, um sistema inovador que facilitou lidar com a complexidade de dados a nível mundial.




Em 2022, António voltou às gravações, lançando dois EP: At Your Service, Ma’am, em Junho, com cinco temas (My baby my mind, I want to love, Red lace, Love is the storm e Remedy) e At Your Service, Ma’am! 2, no início de Dezembro, com mais sete (Confidance, Poison in a glass, Look into my eyes, Always the same, Bambi John, Slower - EP Version e Cigarretes). Um total de 12 temas que poderão vir a integrar um único álbum, em formato físico, em 2023, e por onde passam influências cinematográficas, aparentadas à soul das bandas sonoras de Isaac Hayes. “É 100 por cento uma referência, claro”, diz António. “O Isaac Hayes é o paizinho dos violinos, o homem da batida, o homem do Shaft, e o Shaft é uma daquelas influências televisivas da minha infância, tal com todos os outros blaxploitation movies dessa época. É uma óptima referência.”

Mais preocupado com a produção e a composição musical do que com apresentações ao vivo, ainda assim António Vale da Conceição aceitou fazer um pequeno concerto para a rádio, esta quinta-feira, 15 de Dezembro, às 19h. “Vou apresentar o disco na SBSR.FM, da Super Bock Super Rock, e poderão ver ali o que pretende ser o meu trabalho, a minha assinatura. Tento sempre trazer coisas diferentes cá para fora, acredito muito nas versões e em rearranjar as músicas constantemente. Aquilo que vou apresentar será um ‘showcasezinho’ com The New Sensations, um grupo de três cantoras com quem trabalho. Acho que vai ser interessante.”

tp.ocilbup@ocehcap.onun





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