O FINAL DA MADRUGADA

 



Habito um recanto de raro encanto, impregnado de uma aura romântica que lhe confere uma magia própria. Embora seja tecnicamente um largo, chamam-lhe Praça, como se o nome lhe trouxesse mais dignidade. As poucas moradias que ladeiam este espaço exibem orgulhosamente linhas Art Déco, e é a escola — obra- prima assinada pelo arquiteto José Marques da Silva — que se ergue como o seu mais nobre ex-líbris. As restantes habitações, em generoso diálogo cromático e de breves pormenores em azulejo, parecem responder à imponência da fachada escolar. Entre elas reina uma harmonia subtil, que me recuso a perturbar.

A Escola Secundária, obra do arquitecto Marques da Silva

Conheço cada recanto destas redondezas. Posso afirmar, sem hesitação, que aqui se está próximo de tudo ou, pelo menos, de quase tudo.

A minha mente desperta-me antes do sol, por volta das seis, e, por vezes, como nesta manhã, cedo ao impulso de me levantar, preparar-me e partir em direcção ao “café das meninas”, assim o alcunhámos, em casa, pois são sempre senhoras quem atende. O estabelecimento abre portas às seis da manhã, a dois passos da Praça, e convida à rotina matinal dos que o procuram.

É um privilégio raro sentir a cidade ainda recolhida, a praça livre do tumulto habitual, caminhar serenamente para o frio e o negrume da madrugada, apenas dissipados pelo brilho discreto dos candeeiros antigos. Ao longe, o café resplandece como um farol, e as silhuetas esparsas dos que, como eu, se dirigem para lá, evocam memórias de outros tempos. Recordo-me, então, da juventude, quando, professor, seguia para a estação acompanhado por operários de marmita em punho, eu rumando à Escola Secundária Gago Coutinho, em Alverca do Ribatejo. Sinto que percorro agora uma elipse, uma viagem no tempo suavizada pelo lastro das experiências vividas.

Ir, logo após as seis, ao café-pastelaria de sempre e pedir o habitual é um ritual de contemplação: uma tentação que me permite vislumbrar, quase sem querer, os fragmentos da vida dos outros — gente que, compelida pelo dever, desperta antes de mim, chega envolta em agasalhos para se proteger do frio cortante, pede um café, murmura frases de sonolência a que as meninas respondem com uma energia quase contagiante.

Não sou político, abstenho-me de palavras para melhor observar e absorver o pulsar da vida alheia, e constato quão árdua é a existência destes trabalhadores, arrancados à cama pelas cinco da manhã, vindos de longe, onde as rendas pesam menos no bolso, em busca do pequeno luxo de um café ou de um “pingo” quente. Só partilhando o espaço, ombro a ombro, se compreende a crueza e a dignidade da vida popular, dessas maiorias invisíveis que, sem automóvel, se movem e sustentam o quotidiano. Em silêncio, respeito profundamente cada um destes homens e mulheres, herdeiros do destino que lhes coube.

Satisfeita a minha gula, e sentido o fardo das vidas que me cruzaram, retorno ao lar ainda mergulhado em silêncio. Abro as portadas, e, contemplando o romper tímido do dia, celebro o privilégio de assistir, em paz, ao nascimento de uma nova manhã.

Agora já as televisões irrompem com as insolências dos jogos de poder. É assim quotidianamente. Porque esse lado do privilégio, jamais aprende. E, se alguma vez acordou à hora do povo, depressa o esqueceu perante o deslumbramento.


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