O IMPÉRIO DA ILUSÃO
O princípio da Felicidade começa quando compreenderes no teu íntimo que este é um mundo de ilusões.
Iludes-te e iludem-te desde criança. Aí começas logo a ser formatado, e começas a crer que o teu corpo, a tua mente e o teu espírito são uma e a mesma coisa. Isto é, somos aquilo que fizeram de nós.
Dessa união nasce em ti a ideia do colectivo. De facto não te recordas mas o teu nascimento foi um acto individual, e a tua morte sê-lo-á também.
No percurso que encetas desde que nasceste passas por uma fase onde não tens receios de te expressares. Desenhas como queres, como achas, sem valorizares um desenho sobre outro. Ainda és livre.
De permeio, o teu ego vai-se consolidando.
Mais tarde ficarás constrangido, olharás para o lado e dirás que não sabes desenhar, ou cantar, ou tocar música, como se isso fosse uma qualidade e não uma característica. Aí o teu ego compara-se, cria defesas através das máscaras que vais criando e colocando. E eis-te chegado/a ao reino da tua própria ilusão. A realidade passa a ser apenas aquilo que queres que ela seja. Tu a constróis.
Se tiveste uma infância isolada, o modo como reages ao mundo que construíste é diferente daquele que cada criança que nasceu numa família com mais irmãos. Porém, acredita, nenhum irmão é igual ao outro. Isso faz parte não das qualidades, mas das características individuais. Apenas.
A vida prossegue e casas-te. Entras num período de enleio e paixão que a Natureza do teu ser criou para a procriação. Ou julgavas tu que é um mero acto físico?
Puro engano. A família é a convergência dos indivíduos, não a sua fusão. Mas nem sempre a convergência é igual, como nem todos os membros têm as mesmas inclinações aos sabores, aos aromas, às artes,às ciências, etc.
Há um momento em que começas a julgar. Esse é o momento da dissonância.
Imagina que tens uma tolerância ao sono que o outro não tem. Então estabeleces a métrica a partir do teu sono. E ajuízas o outro e o mundo pela tua métrica, na ilusão de que há uma métrica igual para todos.
Ao mesmo tempo que isso acontece, emerge em ti uma necessidade de dominares o que te rodeia. Tens uma vontade, um desejo. É preciso que ele se cumpra nem que para isso te exponhas ao sofrimento de incutires aos outros, sofrimento. Sofres porque queres algo.
Buda disse que todo o desejo é fonte de sofrimento. O sofrimento é um processo deveras complexo. Envolve tanta coisa... vai desde o desejo de uma convergência de vontades que, a não serem satisfeitas, causam a primeira forma de sofrimento: o desapontamento e o ajuizamento e a subsequente vontade de impôr, de dominar.
Depois vem, inevitavelmente, a comparação ou comparações: "tu és isto, vocês são aquilo enquanto que eu"… e entra-se no processo do confronto porque envolvemos a nossa vontade no mais complexo sistema de justificações, esquecendo-nos que elas só valem para nós, porque apesar de vivermos em grupo, cada um é o seu próprio mundo, e não há dois mundos iguais. O que pode haver, quando muito, é a compreensão de que o que os outros são ou não são não constitui uma afronta para nós. Cada um é o que pode ser e ninguém pode ajuizar.
A Felicidade só começa realmente quando a Ilusão (Maya em sânscrito), causadora de todo o desejo que degenera em sofrimento, termina. Mas... será que terminará?
Vejamos mais uma vez o quão sós realmente somos: estamos enclausurados num corpo, onde está uma mente, ou uma alma, ou ainda uma consciência. Raramente nos apercebemos dessa clausura, dessa solidão, porque socializamos e isso é um escape, a ilusão de que estamos conectados. Mas estar conectado não invalida a nossa solidão.
Por exemplo, uma mulher grávida tem dentro de si um outro ser. Não é ela, é outro ser que habita nela. Quando dá à luz, percebe que é algo intransmissível, seja a dor, seja o amor da maternidade, seja o recém-nascido.O parto é, por isso, um acto solitário, por muito assistido que esteja.
Então o que emerge é o Amor. E o que é o Amor? Primeiro que tudo, é uma energia positiva. Mas mais do que isso é a suave diluição do mundo de Ilusões em que vivemos, pelo seu alheamento. O Amor não tem que ver com egoísmo ou com generosidade. O Amor emerge para compreensão e aceitação do que cada um é, das suas imperfeições, das limitações e características de cada um. O Amor não é aquilo a que chamamos "amor". O verdadeiro Amor é uma energia deslumbrante, poderosíssima, não humana, informe como a água, inesgotável, que envolve sem afogar, que toma a forma de cada escolho sem o modificar. O Amor é a mais bela energia capaz de, pela sua Natureza Universal, operar transformações.

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