A PROPÓSITO DE UMA PEÇA DE CERÂMICA DE SHIWAN - 楊貴妃


Enquanto director do Museu Luís de Camões um dos privilégios que tive foi o de promover a divulgação da cerâmica de Shiwan ou Seak Wan, no dialecto da província de Guangzhou, onde Macau se insere.


EM 1980, com o Museu inaugurado, entre a colecção de Shiwan de Manuel da Silva Mendes.

Esta soberba peça, como toda a preciosíssima colecção de cerâmica de Shiwan que faz da colecção que primitivamente pertenceu a Manuel da Silva Mendes, a melhor e maior do mundo, tem nesta belíssima peça, mostrando Yang Gueifei (楊貴妃) consorte do imperador Xan Zong 唐玄宗 (685 - 762) da grande dinastia Tang, um exemplo do refinamento a que chegou a cerâmica popular de Shiwan, cujos primeiros fornos do tipo dragão, datam de há mais de um milénio.

Não há provas de que Manuel da Silva Mendes tenha encomendado esta peça ao Grande Mestre Pun Yu Shu, embora se saiba que Silva Mendes encomendou obras a Pun Yu Shu e Chen Wei Nam para a sua colecção. Esta peça integra o espólio de Silva Mendes, como todas as outras que integram a colecção do Museu Luís de Camões — agora Museu de Arte de Macau — adquiridas pelo governo de Macau à viúva do coleccionador.

Yang Gueifei (楊貴妃) foi uma das quatro beldades da China antiga (四大美人), aquela que fazia as flores deixarem de florir ao contemplarem o seu rosto.

As restantes, Xi Shi, do período da Primavera e Outono século VI a.C. cuja beleza fazia os peixes pararem de nadar ao verem o seu reflexo na água, Wang Zhaojun (séc.I a.C.) Período Han Ocidental, que fazia os pássaros esquecerem-se de voar, e Diaochan, Período dos Três Reinos (séc.III) que fazia a lua empalidecer. Estes mitos terão todos alimentado a literatura chinesa e os conceitos de beleza.

No caso desta peça mostrando Yang Gueifei olhando um espelho de que só resta a pega, tem aos pés um eunuco que, ajoelhado, lhe vem entregar um colar, oferta do imperador.

Um outro aspecto curioso é que os ceramistas de Shiwan descobriram que, se não vidrassem as partes das suas obras correspondentes à pele, o detalhe seria infinitamente maior. E assim, o contraste entre o vidrado da roupa e a pele torna esta cerâmica muito mais interessante.

No exercício do meu cargo, pude descobrir uma fortissima ligação e semelhança entre a cerâmica utilitária de Shiwan, e a cerâmica das Caldas da Rainha, como um cinzeiro que encontrei no meu gabinete em forma de uma alface e que, virando-o, vi o selo chinês impresso no barro. Assim, o nosso Rafael Bordallo Pinheiro, que era filho de Manuel Maria Bordallo Pinheiro, teve um irmão que nasceu logo a seguir, e que se chamou Feliciano Henrique Prostes Bordalo Pinheiro, e que viveu em Macau como coronel de Artilharia, foi professor da Escola do Exército, Director dos Serviços de Obras Públicas de Macau, e fundador da Real Fábrica de Louças de Caldas da Rainha. Nascido um ano depois de Rafael Bordallo Pinheiro, em 1847, faz todo o sentido que tenha contactado com a cerâmica de Shiwan e trazido para as Caldas algumas peças que terão influenciado a genialidade de Rafael, uma vez que faleceu apenas em 1905, já Silva Mendes estava em Macau e a cidade seria seguramente um centro de escoamente desta cerâmica que também está presente nos templos.

Nos anos 1980 tive oportunidade de apresentar no Museu Malhoa das Caldas da Rainha uma exposição de cerâmica de Shiwan e, em colaboração com o Museu e uma outra instituição, levar a Macau uma exposição das obras de Rafael e da Fábrica de Cerâmica.

Toda esta história a propósito desta belíssima peça, feita nos finais do século XIX com cerca de 30 cm de altura e que esteve exposta na Fundação Caouste Gulbenkian quando o Museu Luís de Camões propôs a organização de uma QUINZENA DE MACAU que contou com uma Exposição, logo em 1979, a que dei o nome de "Macau • 400 Anos de Oriente".

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