O TEMPO E AS VERDADES
Toda a mudança assusta! Nicolau Maquiavel, o autor de “O Príncipe” e “A Arte da Guerra” (dell'arte della guerra) escreveu que a Mudança criava sempre muitos opositores. Porém, uma vez esta estabelecida, aqueles que mais ferozmente se opuseram a ela seriam os primeiros a mais beneficiar.
A década da Revolução Francesa, destrona um regime opressor e absolutista, rapidamente se desenvolve na tomada da Bastilha, na formulação da Declaração Universal dos Direitos do Homem e do Cidadão e, ao som dos gritos de Liberdade, Igualdade e Fraternidade, se constata como essa década iniciada em 1789 se auto-destruiu com os seus diversos processos evolutivos ajudados pela invenção do médico Joseph Ignace Guillotin. Essa década, onde o Absolutismo deu lugar à República, veria tantas mortes tornadas inúteis com a emergência de um certo Napoleão Bonaparte, vindo do Consulado.
O período da Revolução Francesa e as diversas ilacções que dela se podem extraír – e serão várias e diversas – é paradigmático da contradição humana e, sobretudo, dos incontroláveis movimentos de massas e decorrentes populismos.
Assim, num tempo em que a Europa se tem como uma União Democrática, tenho e tenho-me questionado sobre o significado desse termo. Poder do povo? Porque há eleições e liberdade de expressão? E que dizer dessa União onde o Brexit é um rombo e onde uma Alemanha e a França ditam as regras do jogo? Praticamente ninguém diz nada sobre o jogo. As eleições que tanto prezamos no momento histórico, porque se acredita que legitimam o a vontade das massas, deu origem a uma classe a que chamamos políticos, alguns dos quais já se encontram atrás das grades, apesar do tal sufrágio popular.
E tudo isto porque, como sempre, na história da humanidade, vivemos a circunstância. Mais do que isso, somos a circunstância, com o préstito de crenças que arrastamos connosco consoante a geografia que habitamos.
Vivemos uma actualidade onde cabem a globalização, a realidade virtual, comunicações internacionais instantâneas, informação também imediata, pagamentos digitais, cirurgias robotizadas, inteligência artificial, jornais digitais, comércio digital e, naturalmente, redes sociais onde, para nos inscrevermos, damos parte da nossa informação pessoal, e até este modesto artigo pode ser lido. Mas, dizem, existem regras de preservação de dados pessoais. Dizem... e nós vamos acreditando, ainda que possam saber a todo o momento onde estamos pelo rasto do nosso telemóvel.
Há já muito tempo que qualquer piloto de uma aeronave comercial programa o computador de bordo para o trajecto que quer e apenas se preocupa com o arranque e, se quiser, com a aterragem.
Enquanto os automóveis híbridos e eléctricos se vão afirmando na medida da capacidade de compra das populações, enquanto os automóveis sem condutor já estão na sua fase experimental e ameaçam em breve tornar-se uma realidade num mundo cada vez mais veloz.
É assim que tem cabimento esta análise de uma apresentadora brasileira sobre o drama da existência de câmaras de reconhecimento facial na China que, sem as características da democracia Ocidental já dita e repetida, parte do princípio geográfico-circunstancial da diabolização de todas as práticas que não cabem na formatação do nosso pensamento, mesmo quando este sofre da enorme contradição que todas as diabolizações e etnocentrismos acarretam.
E assim temos que um país como a China, que inventou a pólvora, a bússola, o papel, a seda, o sismógrafo, a besta, o papagaio de papel para usos militares, que sempre foi reino e mais tarde império, usufruindo do encorajamento actual todo poderoso na prossecução de avanços tecnológicos, avança com a tecnologia do reconhecimento facial para poder assegurar o controle de 1.400 milhões de habitantes em uma maioria Han e 56 minorias étnicas. Ninguém contesta que é uma sociedade autoritária de partido único que, em 40 anos, menos tempo do que a revolução do 25 de Abril para uns 10 milhões de pessoas, conseguiu tornar-se na segunda maior potência mundial seguindo os seus padrões internos e, ironicamente, conforma titula este artigo da Visão, tornando-se os Novos Donos de Portugal.
Na realidade exclusivamente chinesa, eis que a apresentadora fala do direito à privacidade, e todos os valores ocidentais actuais – que já foram entregues de mão beijada a todos os poderes virtuais e reais do Ocidente, com o telemóvel, o cartão de crédito, e todas as outras formas tecnológicas em uso – como quem diz que comer com pauzinhos é a maior selvajaria quando o Ocidente comia à dentada ou com uma simples faca sobre uma fatia de pão.
A senhora em questão talvez se esqueça que o seu país é um dos mais corruptos do novo Continente e, por isso, esquece-se dos seus telhados de vidro nas milhares de favelas onde a sobrevivência se faz pelo tráfico de droga e pela matança violenta.
A senhora talvez se esqueça que é errado avaliar outras culturas com os parâmetros da sua cultura.
Por isso, quando os automóveis que conduzem sozinhos tiverem de recorrer ao reconhecimento facial para não serem roubados, como hoje já há telemóveis que usam o reconhecimento facial para se desbloquearem, talvez possamos ver o alcance não apenas do reconhecimento facial, mas quiçá de sistemas políticos que se não enquadram na formatação “democrática” ocidental, mas que demonstram níveis de crescimento tão elevados que ridicularizam o Ocidente, o mesmo que pilhou a China há menos de 200 anos.
Tive oportunidade de traduzir, embora deficientemente, um artigo intitulado Império de Imperadores estando aqui disponível o artigo original.
Talvez assim possamos perceber uma coisa de que falamos muito mas respeitamos pouco: simplesmente o amplo conceito de cultura.
Subscrevo na íntegra o teu artigo, Tio. Afinal quando somos obrigados a partilhar os nossos dados pessoais para podermos ter acesso às aplicações e notícias dos órgãos de comunicação social (ex. Expresso, Observador, etc) estamos formalmente a autorizar que vendam esses dados aos seus clientes hoje designados por parceiros (Cambridge Analitics, etc). Afinal de contas o que está a acontecer no Odidente influencia o Oriente e vice versa O caso paradigmático é o novo estabelecimento da, salvo erro, Amazon, em que no final das compras os clientes saem sem ter que efectuar nenhum pagamento no local (não há caixas para pagamento) nem conferência dos artigos que levam porque o Big Brother viu e filmou tudo. O débito às suas contas também é automático.... Por outro lado, enquanto em muitos países a corrupção é uma instituição (organizações internacionais avaliam os fundos anualmente desviados por corruptos em Portugal como sendo superiores ao orçamento anual da Segurança Social, para não falarmos do Brasil que até mete dó) na RPC a corrupção dá direito a fuzilamento. Apesar de ser liderado por um partido único, as pessoas não se apercebem que na China a pobreza foi quase erradicada enquanto que nas
ResponderEliminar"democracias ocidentais" a classe média empobrece, os bancos são salvos pelos contribuintes na sequência de processos obscuros. Plutocracia, a quanto obrigas.
A confirmação desta afirmação (que não é minha, o exemplo dado a seguir isso sim), temos na situação caricata das eleições norte-americanas em que John Kerry se opunha a Bush Jr. Os jornalistas colocaram a ambos os candidatos uma pergunta: como é possível que os 2 candidatos a PR dos EUA são ambos membros da loja maçónica (e secreta) Skul and Bones? Sintetizando, a resposta de ambos foi: É como dizem, é uma organização secreta, por isso não podemos comentar.
Abraço