MANDARIM VENERANDO A MÃE, E A CERÂMICA DE SHIWAN

MANDARIM VENERANDO A MÃE
Uma das inovações que Confúcio 孔夫子 (nascido entre 552 a.c e 489 a.c no Período da Primavera e Outono), introduziu na China, foi a noção de homem nobre ou homem superior Junzi, 君子, modificando assim o entendimento de nobreza, estendendo o conceito ao já referido homem superior, "aquele que fala através dos seus actos".
Com o tempo, tornou-se possível uma democratização da administração e assim, todos aqueles que estudavam os Clássicos, independentemente da origem ou classe social, podiam concorrer aos exames imperiais. Os candidatos confluíam de todas as províncias chinesas, geralmente montados num cavalo, ou a pé. Nos exames, à medida que iam sendo chamados, eram fechados em celas onde lhes era facultado papel, pincel e tinta, para enfrentarem os exames que duravam dias. Àqueles que eram admitidos, os chamados mandarins, tornavam-se assim nos burocratas que iriam progressivamente ascender na hierarquia e, naturalmente, enriquecer.
Ora a peça de cerâmica que encima este modesto texto, mostra dois sentimentos considerados fundamentais na China antiga: a Piedade Filial, termo que preferia que fosse de Dedicação Filial, e Gratidão. Assim, a peça que aqui pode ser vista mostra o recém-nomeado mandarim, com o barrete da dinastia Ming 明朝 (1368 - 1644) e o cinto de magistrado, ajoelhando-se perante a velha Mãe, e prestando-lhe homenagem com as duas mãos que é assim uso na China. Nunca se entrega nada com apenas uma mão, o que é considerado rude.
Esta peça foi adquirida há já muito tempo, e amorosamente guardada, autoria de Zuan Jia 莊稼, ceramista e discípulo do último Mestre de ShiWan, Lio Chuen.
A CERÂMICA DE SHIWAN 石灣窯
Shiwan é uma região a cerca de 100 km de Macau que se dedicou à cerâmica desde, o Neolítico, conforme escavações arqueológicas o comprovam.
Porém, a sua importância enquanto cerâmica popular, iria ganhar notoriedade graças, sobretudo, a Manuel da Silva Mendes.
Porém, a sua importância enquanto cerâmica popular, iria ganhar notoriedade graças, sobretudo, a Manuel da Silva Mendes.
Silva Mendes nasceu perto de Famalicão em 1867, tendo chegado a Macau em 1900 e aí falecido 30 anos depois.
Longe de se encerrar num círculo fechado dos chamados reinóis (os que vinham do reino), Manuel da Silva Mendes aprofundou o seu interesse pelo Taoísmo e cultivou amizades entre a Comunidade Chinesa de Macau e no exterior, entre os quais o abade budista Sek King Seng e, de entre outras personalidades fora de Macau, de alto gabarito no universo chinês, tinha por amigos, entre outros, Tang Shao Yi, ex-Primeiro-Ministro e ex-Embaixador em Washington. Não estamos pois a falar de um curioso qualquer, mas antes um dos diversos eruditos chineses com quem conviveu.
"Descobriu" e apaixonou-se pela cerâmica de Shiwan, da região de Foshan.
Longe de se encerrar num círculo fechado dos chamados reinóis (os que vinham do reino), Manuel da Silva Mendes aprofundou o seu interesse pelo Taoísmo e cultivou amizades entre a Comunidade Chinesa de Macau e no exterior, entre os quais o abade budista Sek King Seng e, de entre outras personalidades fora de Macau, de alto gabarito no universo chinês, tinha por amigos, entre outros, Tang Shao Yi, ex-Primeiro-Ministro e ex-Embaixador em Washington. Não estamos pois a falar de um curioso qualquer, mas antes um dos diversos eruditos chineses com quem conviveu.
"Descobriu" e apaixonou-se pela cerâmica de Shiwan, da região de Foshan.
Para quem não conheça tão bem a cerâmica de Shiwan, direi que os templos budistas da Província de Guangzhou (Cantão) onde Macau se insere, estão decorados com cerâmicas polícromas como a que se mostra na fotografia em baixo.
Dois peixes, homófonos de Harmonia, ladeiam a Pérola (azul) do budismo encimando um numeroso grupo de personagens, muitos deles vestidos com trajes de ópera chinesa, criação dos artesãos de Shiwan para cumeeira de um templo.
Começou a coleccionar esta cerâmica de cariz popular num momento em que se afirmavam os mestres ceramistas, entre os quais há a destacar Chan Wei Nam (falecido em 1926)* e Pan Yu Shu (1889-1936)*
Em breve encomendava peças aos dois mestres, o segundo discípulo do primeiro.
Passo a mostrar algumas fotografias que possuo de catálogos do meu tempo à frente do Museu Luís de Camões. Tudo da colecção conhecida por colecção Silva Mendes, a maior e mais variada colecção do mundo.
Chang' e 嫦娥 a deusa da Lua e Yi 羿 o arqueiro que, segundo uma das lendas antigas, matou seis dos sete sóis que ameaçavam a China.
Estas figuras também decoravam os telhados dos templos chineses.
Yang Guifei 楊玉環, uma das quatro maiores beldades da China, favorita do imperador Xuanzong da dinastia Tang 唐朝 (618 - 907) de Pan Yu Shu
Estas figuras também decoravam os telhados dos templos chineses.
Yang Guifei 楊玉環, uma das quatro maiores beldades da China, favorita do imperador Xuanzong da dinastia Tang 唐朝 (618 - 907) de Pan Yu Shu
Esta peça com aproximadamente 36,5 cm é, não só de uma extraordinária beleza, como revela uma das características fundamentais da cerâmica de Shiwan: sempre que existe vidrado nas peças, este jamais cobre as partes correspondentes à pele, para preservação do detalhe.
No caso desta peça, um eunuco apresenta pérolas ofertadas pelo imperador, enquanto a favorita se olha a um espelho que nunca conheci senão pela pega que Yang Guifei segura.
No caso desta peça, um eunuco apresenta pérolas ofertadas pelo imperador, enquanto a favorita se olha a um espelho que nunca conheci senão pela pega que Yang Guifei segura.
Hua Tó 華佗 escultura retratando o médico chinês (140 - 208) que viveu no Período Han Oriental, a quem se atribui a invenção da acupunctura.
Cerca de 75 cm de altura. Autor Pan Yu Shu
Auto-Retrato de Chen Wei Yan imitando bronze. Altura 37 cm
Também eu fiquei profundamente impressionado com o virtuosismo desta arte cerâmica.
Curiosamente, vi no meu gabinete um cinzeiro em forma de folha de couve dobrada em quatro, dizendo para comigo quão curioso era este encontro entre Shiwan e as Caldas. Mais atónito fiquei quando vi que na base do cinzeiro estava a marca Made in China. Esta descoberta permitir-me-ia mais tarde promover uma exposição de Shiwan nas Caldas da Rainha e uma deste centro português de cerâmica na Galeria da Câmara de Macau. Comigo ficou sempre a dúvida se teria havido uma peça de Shiwan que teria chegado às mãos de Rafael Bordallo Pinheiro, sem jamais desmerecer do seu génio. Após posterior investigação, soube que Rafael Bordallo Pinheiro teve um irmão que nasceu logo a seguir, e que se chamou Feliciano Henrique Prostes Bordalo Pinheiro, e que viveu em Macau como coronel de Artilharia, foi professor da Escola do Exército, Director dos Serviços de Obras Públicas de Macau, e fundador da Real Fábrica de Louças de Caldas da Rainha. Nascido um ano depois de Rafael Bordallo Pinheiro, em 1847, faz todo o sentido que tenha contactado com a cerâmica de Shiwan e trazido para as Caldas algumas peças que terão influenciado a genialidade de Rafael, uma vez que faleceu apenas em 1905, já Silva Mendes estava em Macau e a cidade seria seguramente um centro de escoamente desta cerâmica que também está presente nos templos.
Curiosamente, vi no meu gabinete um cinzeiro em forma de folha de couve dobrada em quatro, dizendo para comigo quão curioso era este encontro entre Shiwan e as Caldas. Mais atónito fiquei quando vi que na base do cinzeiro estava a marca Made in China. Esta descoberta permitir-me-ia mais tarde promover uma exposição de Shiwan nas Caldas da Rainha e uma deste centro português de cerâmica na Galeria da Câmara de Macau. Comigo ficou sempre a dúvida se teria havido uma peça de Shiwan que teria chegado às mãos de Rafael Bordallo Pinheiro, sem jamais desmerecer do seu génio. Após posterior investigação, soube que Rafael Bordallo Pinheiro teve um irmão que nasceu logo a seguir, e que se chamou Feliciano Henrique Prostes Bordalo Pinheiro, e que viveu em Macau como coronel de Artilharia, foi professor da Escola do Exército, Director dos Serviços de Obras Públicas de Macau, e fundador da Real Fábrica de Louças de Caldas da Rainha. Nascido um ano depois de Rafael Bordallo Pinheiro, em 1847, faz todo o sentido que tenha contactado com a cerâmica de Shiwan e trazido para as Caldas algumas peças que terão influenciado a genialidade de Rafael, uma vez que faleceu apenas em 1905, já Silva Mendes estava em Macau e a cidade seria seguramente um centro de escoamente desta cerâmica que também está presente nos templos.
Fascinado com a cerâmica de Shiwan e sobretudo com a diversidade de formas e temas que a compunham, desde vasos imitando troncos de árvore até jarras das mais diversas formas e vidrados sangue de boi, ou flambée, fui ao longo dos anos convidado a participar nos encontros anuais que são promovidos em Shiwan.
O único não-chinês a participar nos trabalhos, tendo à minha direita a viúva de mestre Lio Chuen e à esquerda e à volta, ceramistas e directora do Museu de Guangzhou. Século XXI
Ao longo da minha vida activa, tive oportunidade de dar a ver toda a colecção Silva Mendes, desta sua cerâmica de que foi o maior coleccionador, estudioso e arauto, atá às pinturas de Lin Liang 林良 e Bada shanren 八大山人, ambos notáveis pintores da dinastia Ming 明朝 (1368 - 1644), bronzes e jades na exposição Macau - 400 Anos de Oriente que teve lugar em 1979 na Fundação Calouste Gulbenkian.
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Nota*: estas datas teriam existido em artigos e documentos chineses mas nunca traduzidos. A sua publicação em português deve-se a consulta ao Museu de Arte de Macau, sucedâneo do Museu Luís de Camões.








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