A SELECÇÃO DE TODOS NÓS

A selecção de 1947 com o guarda-redes Azevedo atrás à esquerda.
À frente, 1º da esquerda, Jesus Correia, 3º Peyroteo, 4º Travassos e Albano.


No decurso das já longas décadas com que conta a selecção nacional, encontrei aqui um tesouro para todos aqueles que se interessam muito pelo jogo da bola.
O meu interesse integra-se mais numa reflexão sobre a realidade portuguesa actual, muito diferente da equipa da fotografia, de 1947, que foi goleada pelos ingleses por 10-0, no tempo da outra senhora. 
A realidade mudou desde então, em passos sucessivos que tiveram nos benfiquistas Eusébio, José Augusto, Torres, Coluna e Simões, um esteio de ataque e nos sportinguistas Alexandre Baptista, Hilário Morais e José Carlos e, na primeira ida ao mundial, em 1966, o primeiro ponto verdadeiramente alto de Portugal. Antes disso tinha sido apenas José Travassos a ser incluído na selecção da Europa, tendo ficado para sempre o Zé da Europa. Mas não mudou o suficiente, em minha modesta opinião.
Estão também aqui pequenos bocados da história do futebol português de acordo com a FPF.
Os clubes tinham emergido da revolução de 25 de Abril energizados, mas continuavam a ser sustentados pelas quotas dos sócios e por mecenas e empréstimos bancários o que não permitia a internacionalização do futebol português e a subida do seu nível no panorama europeu. 
Houve entretanto crises no sector industrial. A Lisnave, a Setenave, a CUF, que até tinha uma equipa de futebol. A TAP vendia os seus 747 e as coisas no geral não estava bem. 
O país é um todo entrelaçado. Nada está isolado. Portugal fabricava a feitio para o exterior no sector do vestuário e calçado. 40 anos de ditadura tinham deixado marcas e tiques bem fundos que se não desenraizavam facilmente.
No futebol os clubes almejavam, como ainda almejam, fazer dinheiro com a venda de jogadores para o estrangeiro, que é a Europa comunitária. Destinos: Itália, França, Alemanha, Inglaterra, Alemanha e Turquia. 
Como sempre disse, recordando Gama, Albuquerque, Luis Vaz e Fernão Mendes, era e ainda é preciso saír para se ser grande. Resta encontrar um estudo sociológico, não muito difícil de realizar por especialistas, para encontrar as razões internas.

No início da década de 1990, através do Decreto-Lei Nº 10/2013 de 25 de Janeiro, publicado no Diário da República, que vem refinar o modelo das Sociedades Anónimas Desportivas, as famosas SADs, (viria a existir pelo menos mais uma alteração ao Regime das SAD EM 1997). Ficavam assim os clubes separados das SAD situação que, em pelo menos um caso, originou a cisão entre o Clube "Os Belenenses" e a emergência do "Belenenses SAD" cuja equipa  joga em campo alheio.

Em Espanha, em França, Itália e Inglaterra os clubes adoptam outras soluções: são comprados por bilionários como Abrahamovic do Chelsea, ou como a Família Glazer, dona do Manchester United ou a City Football Group, sediada nos Emiratos Árabes Unidos, dona do Manchester City, ou em França o PSG cujo dono é o bilionário Nasser Al-Khelaifi, CEO da Qatar Sports Investments. Estes apenas alguns exemplos, para não falar do Bayern de Munique, detido em conjunto com o clube, pela Adidas, pela Audi e pela Saúde Insurance Group Allianz.
Temos assim que os chamados cinco grandes da Europa do Futebol não requerem SADs, sendo cobiçados como fontes de investimento enquanto cobiçam futebolistas e treinadores de países mais baratos, como Portugal.
Foi assim que Cristiano Ronaldo saiu de Portugal aos 18 anos para o Manchester United o que lhe permitiu, bem guiado, explodir todo o seu talento nos campos dos maiores do mundo: porque saiu! Infelizmente, tivesse ele ficado por cá, lá andaria metido nas costumeiras quezílias. Agora está nas bocas do mundo pelas melhores razões. 
E depois de Figo e de Ronaldo, seguiram-se outros como Bernardo Silva, André Silva, João Moutinho, Diogo Jota, João Cancelo, Trincão, Rafael Leão, William Carvalho e tantos outros.
Também ao nível de treinadores Portugal tem tido grande procura, a começar por José Mourinho, Bruno Lage, Abel Ferreira, Paulo Sousa, Marco Silva e Vitor Pereira, apenas para citar alguns dos muitos. 
A tudo isto, ao modo como do mundo nos olham, sou levado a comparar esta realidade com o nosso turismo. 
Confesso que, depois de ter conhecido a Tailândia, Vietname, alguma Malásia acho que o turismo é uma indústria que, no nosso caso atrai, não apenas pela simpatia das gentes, pela beleza do país, pela gastronomia e por muitas outras qualidades, mas porque para os estrangeiros é um país barato
As casas subiram de preço também porque muitos estrangeiros estão a comprar as melhores ao preço da sua chuva, perante a ausência de uma entidade reguladora que proteja os portugueses. Será que os vistos gold ainda não desapareceram?
Tudo isto é muito feérico, a começar no Algarve que, já no tempo do Solnado, era outro país.

Repito o que escrevi mais acima: tudo está interligado.
A maioria dos sócios dos clubes nacionais não quer ouvir falar em donos de clubes. Prefere ser dos últimos a ter donos que resolvam as carências financeiras dos clubes. 
Não é uma atitude racional, pois não são mais adeptos que os ingleses, os franceses os italianos, espanhóis ou alemães. Mas é o que é, e venha o turismo aos magotes porque só vemos o dia imediato. 
Um dia acordamos e vemos que mais de metade do país não é nosso. E, quanto à compra de casa, acho que estamos entendidos e conversados.

Por outro lado casa-se a fome com o fastio. A nossa Liga não é apetecida. Não vende, isto é, ninguém quer comprar os nossos clubes porque o sistema não dá lucros. Não sabemos, nunca soubemos promover-nos adequadamente. Mais uma vez tudo está interligado, o ovo e a galinha. 
Somos uma espécie de talho onde as grandes ligas apenas vêm escolher os melhores jogadores. Entretemo-nos com negócios sempre mais baratos, mais pequeninos do que noutras Ligas. E vamo-nos contentando com esta situação porque a maioria dos dirigentes nunca saiu, nunca se tornou verdadeiramente grande. 
Ser-se grande implica traquejo, domínio de várias línguas, capacidade de olhar para o longo prazo, ter mundo. E confesso que não vejo em Portugal nenhum dirigente de topo com tamanhas qualidades.

Fernando Santos

Falemos agora do seleccionador da já antiga denominação de "Selecção de Todos Nós". Fernando Santos, que treinou o Estoril, Marítimo, Estrela da Amadora, Porto, o Benfica e o Sporting, e rumou para a Grécia do AEK e do PAOK, Panathinaikos e seleccionador da Grécia. Conquistou o Europeu de 2016 com um golo improvável do desaparecido Eder e a Liga das Nações da UEFA de 2018-2019. Nas últimas, conseguiu o apuramento para o mundial do Qatar vencendo já no play-off a Macedónia com dois golos de Bruno Fernandes.

Confesso que, pessoalmente - e como espectador e português, assiste-me o direito à opinião - Fernando Santos não me dá confiança. Explico a minha modesta lógica:
Quinze dos seleccionados para o próximo jogo contra a Espanha, jogam no estrangeiro. Vejamos os seleccionados:

GUARDA-REDES

1 Rui Patrício AS ROMA

2 Diogo Costa FCPorto

 
DEFESAS

3 Diogo Dalot MANCHESTER UNITED

4 Nuno Mendes PSG

5 Pepe FCPorto 

6 Danilo PSG

7 Domingos Duarte GRANADA

8 David Carmo SC BRAGA

9 João Cancelo MANCHESTER CITY

 
MÉDIOS

10 Vitinha FCPorto

11 João Moutinho WOLVERHAMPTON

12 Bruno Fernandes MANCHESTER UNITED

13 William Carvalho  BETIS

14 João Palhinha SPORTING

15 Otávio  FCPorto

16 Ruben Neves WOLVERHAMPTON

17 Matheus Nunes SPORTING

 

ATACANTES

18 Cristiano Ronaldo MANCHESTER UNITED

19 André Silva LEIPZIG

20 Ricardo Horta SC BRAGA

21 Bernardo Silva MANCHESTER CITY

22 Rafael Leão AC MILAN melhor jogador de Itália

23 Gonçalo Guedes VALÊNCIA

24 Diogo Jota LIVERPOOL


Fernando Santos adopta invariavelmente o 4-3-3 ou o 4-4-2.
Em minha opinião falta-lhe rasgo e, atrevo-me a dizê-lo, liderança. Olho para Pep Guardiola ou para Jurgen Klopp, para José Mourinho, para Sérgio Conceição ou para Ruben Amorim e vejo uma ideia de jogo, capacidade de criar, de variar, de inovar. Então em Guardiola, mesmo a ganhar, está sempre a dar indicações porque quer mais, sempre mais. Klopp é a mesma coisa, mas mais germânico. Mourinho tem no seu historial 25 títulos, isto é, depois de ter ganho tudo o que havia para ganhar.
É sobretudo um líder que olha de frente, não fala na Senhora de Fátima, não se benze nem tem tiques e esgares. Tiques e esgares não me incutem confiança e rezas e benzeduras também não.

Pep Guardiola. Jurgen Klopp. e José Mourinho


Bernardo Silva, e João Cancelo, treinados por Guardiola, Diogo Jota por Klopp, apesar de serem óptimos, não rendem na selecção o mesmo que nos clubes, porque têm um seleccionador com pouco rasgo. Pergunto-me, por exemplo, se irá colocar Rafael Leão de início, no jogo contra a Espanha. A Liga Italiana votou nele para melhor jogador e é campeão de Itália pelo AC Milan.

A selecção tem também outros jogadores campeões, agora de de Portugal, casos de Diogo Costa, Pepe, Vitinha e Otávio.
A questão não são os jogadores seleccionados, mas a ideia de jogo, a lembrar um Portugal dos Pequeninos.

Os nossos "estrangeiros" estão habituados a um futebol imensamente criativo, os "nacionais" são também excelentes jogadores, capazes de criar, se os deixarem. Porém, pergunto-me se a selecção tem um estilo de jogo. Sinceramente não acho. Não impõe uma ideia, um estilo de jogo. A ideia que Fernando Santos transmite é a de que primeiro não sofrer golos, depois marcar, se possível. Nunca gostei de dançar ao som da música dos outros. Nem de correr atrás dos prejuízos. Sempre gostei de equipas afirmativas, que impõem o seu jogo, que mandam no jogo. E é isso que tenho geralmente andado à espera. Não apenas da posse de bola, mas de mando, de criatividade e eficácia.

Como será no dia 2 de Junho contra a Espanha? E no Portugal Suíça no dia 5? E contra a República Checa no dia 9 de Junho? 

Talvez houvesse uma fórmula que funcionasse melhor: seria dizer aos jogadores todos que joguem como jogam nos clubes. Talvez resultasse mais deixá-los explanar o seu futebol. E seria muito mais prático.

Nota: O autor deste texto não é fanático de futebol, acredita no holismo e não em realidades compartimentadas em cuvetes de fazer gelo, e quer o melhor para Portugal em todas as vertentes da vida. 



 





 

Comentários

Mensagens populares deste blogue

O QUE TEM FEITO A CHINA

O DISCURSO DE MARK CARNEY EM DAVOS

O FINAL DA MADRUGADA