O REITOR DESPORTISTA, ANTÓNIO MARIA DA CONCEIÇÃO

 

Professores e alunos do Liceu de Macau

Com a devida vénia, transcrevo na íntegra o artigo do Dr. Jorge Rangel, a quem, como filho, muito agradeço, publicado hoje no Jornal Tribuna de Macau.


“… o que nos chamou mais a atenção foi uma mesinha onde figuram os troféus ganhos pelo Sr. Dr. António Maria da Conceição, actual reitor do Liceu, que participou num torneio, quando tinha apenas 15 anos, arrancando 5 primeiros lugares e 3 segundos.”

Do Boletim de Informação e Turismo, Macau, Agosto/Setembro de 1969

 

A propósito do 75.º aniversário do Liceu de Macau, em 1969, e correspondendo à solicitação do Pe. Manuel Teixeira, que fora incumbido de reunir material para um número especial do “Boletim de Informação e Turismo” do Governo de Macau, o então reitor, Dr. António Maria da Conceição, antigo aluno desse estabelecimento de ensino oficial, redigiu um curioso testemunho pessoal em que descreveu alguns dos seus notáveis sucessos como jovem atleta, em modalidades diversificadas como o futebol, o atletismo, o ténis e o pugilismo, destacando-se nelas quando tinha apenas quinze anos de idade. Pelo seu interesse, achámos oportuno respigar desse texto algumas das passagens mais apelativas, que “são apenas recordações saudosas de uma época feliz que jamais se esquece e em que se contribuiu para o prestígio do desporto do nosso Liceu”:

 

Futebol

Quando António Maria da Conceição entrou no 1.º ano do Liceu de Macau, em 1921, o futebol já era muito praticado no âmbito do desporto escolar:

“Nos torneios escolares que anualmente se realizavam, o Liceu, coitadinho, era invariavelmente o último classificado, sofrendo autênticas cabazadas, principalmente da parte do Seminário de S. José que, com muito maior número de alunos, possuía uma poderosa equipa, com jogadores de excelente categoria para a época. Mas o Liceu nunca esmoreceu, porque o seu lema foi sempre comparecer às competições e praticar o desporto pelo desporto, jamais se humilhando com as estrondosas derrotas que sofria e… aguardando pacientemente o seu dia. E esse dia chegou…

Integrada numa semana desportiva inter-escolar – que compreendia atletismo, ténis, ciclismo e futebol – a final do torneio de futebol foi disputada entre o Seminário e o Liceu. O Liceu só tinha três jogadores de classe comparável à dos adversários – Fernando Guerreiro, avançado, Laertes da Costa, médio-centro, e eu, avançado-centro e capitão da equipa. O resto eram catraios habilidosos mas inexperientes. (…) Contra toda a expectativa, a miudagem do Liceu, fincando os dentes e actuando com uma energia e entusiasmo extraordinários, fez frente aos seus mais graúdos e categorizados adversários, respondendo com um golo a cada tento marcado pelo grupo do Seminário.

Em volta do campo, o entusiasmo era indescritível e os incitamentos dos apaniguados das duas equipas eram ensurdecedores. A 2 minutos do fim do jogo, o resultado estava empatado 3 a 3. Nessa altura, o Laertes, de posse da bola, faz um passe longo ao Alberto da Silva, que estava isolado na extrema-esquerda pois, como era o mais pequenito, supunham-no inofensivo e deixaram-no desmarcado. O Alberto, com uma calma e mestria que os seus verdes anos não deixavam prever, conduz a bola até perto da linha da cabeceira e daí manda um centro bem medido e a bola, fazendo tabela na minha cabeça bem estendida, entra nas redes adversárias como uma flecha, fixando o resultado final em 4 a 3 a favor do Liceu. Era a vitória tão ansiosa e longamente aguardada!

O que se seguiu – a alegria e o entusiasmo dos estudantes do Liceu – deixo à vossa imaginação… Mas não quero deixar de salientar o aprumo com que os rapazes do Seminário aceitaram a derrota, vindo todos abraçar-nos, um a um, felicitando-nos pelo nosso triunfo. O desporto assim é na verdade bonito e dignificante!”

 

Atletismo

Em Maio de 1925, num outro encontro inter-escolar, António Maria da Conceição, com apenas 15 anos de idade, inscreveu-se em provas disputadas com colegas mais velhos:

“Presentemente, se não estou em erro, os atletas não podem concorrer a mais que 3 provas individuais e uma por equipas, mas nesse tempo não havia tal proibição, por isso entrei em seis provas individuais e uma por equipas, classificando-me em todas: 1.º nas corridas de 80, 200 metros, 100 metros barreiras, corrida negativa de bicicleta com obstáculos e 4×100 metros (estafetas) e 2.º na corrida de 100 metros e no lançamento de peso. Na corrida de 100 metros fui vencido por Luís Rodrigues (Lilito), que era então o melhor corredor de velocidade de Macau mas na de 200 metros derrotei António Colaço, esse incomparável atleta que viria a ser, durante largos anos, o melhor ‘sprinter’ de Macau, chegando a ganhar campeonatos de provas de velocidade quando já tinha cerca de 40 anos!

Podem os leitores calcular o estado de euforia em que me encontrava e o meu orgulho e alegria, sobretudo na altura da distribuição dos prémios, que eram entregues pela Sra. D. Angelina Santos, simpática filha do Encarregado do Governo, Sr. Coronel Joaquim Augusto dos Santos, e irmã do Sr. General Flávio dos Santos. Cada vez que o meu nome era chamado para receber o prémio, a Sra. D. Angelina não deixava de dizer: ‘Outra vez tu, assim não vale, estás a levar todas as taças’. Com os meus escassos 15 anos, sentia-me elevado aos píncaros da fama e já me julgava um ás imbatível, um atleta predestinado que faria sucesso em qualquer prova a que concorresse. Eu era essencialmente um ‘sprinter’ e nunca tinha experimentado correr distâncias superiores a 200 metros, mas os fumos da vitória subiram-me à cabeça…


26 de Abril de 1925, aos 15 anos.

Estava marcada para o mês seguinte às mencionadas provas escolares uma corrida de fundo – Jardim de S. Francisco até Meia-Laranja e regresso ao ponto da partida. Inebriado com os recentes triunfos e sem um único treino (para quê, se eu era tão bom atleta?), inscrevi-me e entrei na prova. À ida, tudo corria bem e eu ia a par dos primeiros mas à volta, já sem fôlego e com fortes pontadas no lado, as pernas recusaram-se a correr e tive que… regressar de riquexó. Mas o que mais me humilhou foi encontrar, junto ao Palácio do Governo, a Sra. D. Angelina Santos que, com um sorriso pesaroso, não pôde deixar de se espantar: ‘Que é que aconteceu ao campeão para vir de riquexó?!’”

 

Outras modalidades

António Maria da Conceição também relatou, no citado texto, as suas proezas no ténis e no pugilismo. No ténis foi um dos melhores praticantes do Liceu, tendo sido vencido uma vez, numa final, por um colega mais novo, de nome Manuel da Silva, que “anos mais tarde, viria a ser campeão de Portugal de pares-homens, juntamente com o seu irmão José Trigo da Silva, que foi o atleta macaense que mais se distinguiu na Metrópole, tendo sido campeão nacional de ténis em singulares e pares, campeão nacional de badminton e o melhor hoquista em campo português de todos os tempos.”

Quanto ao pugilismo, cedo se sentiu atraído por ele. Ainda adolescente, era “já um pugilista razoável que lutava com militares e marinheiros em exibições e torneios, com entradas pagas, no Cinema Vitória.” Abandonou a modalidade quando um dia deu um K.O. a um colega que o desafiara e que sofreu algumas mazelas, felizmente temporárias. “Como em Macau as notícias correm céleres, quando cheguei a casa com minhas luvas de boxe, o meu pai estava já à porta à minha espera…"


1926

Apanhei uma tareia mestra e as luvas foram queimadas”, assim explicou o reitor no seu muito interessante testemunho, onde se vê claramente como o desporto foi relevantíssimo para a sua formação, a par dos ensinamentos que recebeu de notáveis mestres que teve no Liceu de Macau.

António Maria da Conceição continuou a distinguir-se no desporto enquanto estudante universitário em Lisboa, tendo sido atleta do Sporting Clube de Portugal.


Em Portugal, aos 18 anos (1928) campeão nacional de estafetas 5x80 metros



1930 - Aos 20 anos, novamente campeão nacional de 5 x 80m


Futebolista pelas reservas do Sporting Clube de Portugal 1930



1951 Presidente do Sporting Clube de Macau



Discursando como Reitor do Liceu Nacional Infante D. Henrique de Macau


Comentários

Mensagens populares deste blogue

O QUE TEM FEITO A CHINA

O DISCURSO DE MARK CARNEY EM DAVOS

O FINAL DA MADRUGADA