O ESPELHO DO PAÍS
Portugal é um País maravilhoso, dotado de enormes potencialidades, habitado por gente boa. Porém, podia ser muito melhor.
Olhando para a realidade do país julgo
poder constatar-se que muito daquilo que é o poder, seja político, económico ou da informação, está nas mãos de poucos e, sobretudo, dos mesmos de sempre.
Essa antiguidade, essa posse do poder é não
apenas corrupta (porque corrupto significa podre, apodrecido) mas dominadora, e
incapaz de ceder o lugar para a partilha entre o saber do tempo e a
generosidade e energia da juventude.
Por outras palavras, uma das principais
razões para o país estar como está é não apenas a falta de mundo de muito do poder
caduco, mas sobretudo porque interessa ao poder que as coisas estejam como estão.
E assim, há muita gente que acha que as coisas são para ser assim. Há Portugal e depois há lá fora. Essa visão, esse hábito, esse fatalismo ainda subsiste por via da ignorância.
E assim, há muita gente que acha que as coisas são para ser assim. Há Portugal e depois há lá fora. Essa visão, esse hábito, esse fatalismo ainda subsiste por via da ignorância.
Portugal é uma SAD de 10 milhões de
pessoas. Um sistema que as maiores ligas do mundo já há muito ultrapassaram,
sobretudo porque as cabeças estão abertas.
Nas escassas conversas que tenho tido com
entusiastas do futebol, falo-lhes de donos de clubes e a resposta é, invariavelmente
um rotundo não.
Que os clubes são dos sócios, mesmo que os mesmos não vivam das suas quotas. Mas ter donos como o Liverpool, o Arsenal, o Manchester City, o Manchester United, o Chelsea, etc. etc. e subir o patamar de qualidade da Liga Portuguesa... não, ah isso não! (Iriamos deixar de ser donos do nosso clube! Mas... vocês são donos do “vosso” clube? Que ilusão...)
Que os clubes são dos sócios, mesmo que os mesmos não vivam das suas quotas. Mas ter donos como o Liverpool, o Arsenal, o Manchester City, o Manchester United, o Chelsea, etc. etc. e subir o patamar de qualidade da Liga Portuguesa... não, ah isso não! (Iriamos deixar de ser donos do nosso clube! Mas... vocês são donos do “vosso” clube? Que ilusão...)
Estou a dar o exemplo de uma Liga Inglesa,
de um país que acaba de sair da União Europeia, que é suficientemente conservador
para ter uma rainha, e um parlamento que repete os primeiros tempos do parlamentarismo
britânico.
Tudo isto me recorda aquela frase lida
numa rede social: um chinês vê uma oportunidade e diz “ainda ninguém fez
isto. Vou fazer”. Um português vê a mesma coisa e diz “porque é que hei-de ser
eu?”.
A recente contratação de Bruno Fernandes vem,
mais uma vez, demonstrar que somos um país que cria talentos para os exportar e
viver disso e de empréstimos. E o mais grave é que ninguém parece incomodar-se
com o nosso anonimato como Liga. Vivemos para dentro, somos muito domésticos e acabamos sendo domesticados pelos poderes e pelos mercados que neles mandam.
Com os defeitos dos outros posso eu bem.
Com os do meu país acho que é necessário corrigi-los, sobretudo num mundo onde
o global é o quotidiano.
É neste contexto que a Fátima Campos
Ferreira trouxe à ribalta do Prós e Contras o tema Cem Jovens, Cem Oportunidades.
Esta onda deveria ser contaminadora,
sobretudo porque acaba por pôr em causa os velhos e decadentes poderes que se
julgam donos disto tudo.
Foi com essa velha ordem que os tecidos
da Covilhã eram fabricados e vendidos para o Reino Unido onde levavam a ourela
de fabricados em Inglaterra e depois exportados para todo o mundo por um preço
elevadíssimo. Mais uma vez fomos e continuamos anónimos. O Made in Portugal não
é reconhecido. Há dois meses, ao passar pela Diego Martin, entrei e
comprei duas camisas. Perguntei onde eram feitas. A simpática senhora, quase
num sussurro, disse-me que eram fabricadas em S. Martinho do Campo. Ah, é a Diogo
Martins! Pois, mas se for português os turistas não compram,
respondeu-me a senhora. Fiquei pasmado. Turistas em Portugal não compram português?
Recordei a minha própria experiência há 32
anos e pensei para comigo: o país não mudou. Tudo é uma quintinha, provavelmente
os lucros não são reinvestidos na empresa até ela ter suficiente capacidade financeira.
Em vez disso, todos sabemos as histórias dos Ferrari e dos Lamborghinis e das
sucessivas falências e consequente desemprego.
Muitos “casos de sucesso” não se tornam
numa empresa de crescimento progressivo, não são nem serão uma Zara nem uma Massimo
Dutti, com capacidade de expansão internacional, apenas para citar gamas baixa e média, por falta de ambição, e porque estão virados para dentro, mesmo exportando. A cabeça é doméstica.
São corpos
isolados, cegamente satisfeitos consigo próprios. Algumas pequenas e médias empresas acabam por ser instrumentos para os donos enriquecerem. Há uma diferença em ser rico e ter uma empresa rica. Não são agentes económicos para o crescimento do País nem para elevarem o nível de
vida nem para o tirar do anonimato. Aliás a ignorância
é exactamente não saber que não se sabe.
E porque hei-de ser eu, vamo-nos assim tornando servos de outros, fabricando a feitio, cachaço para baixo, movendo-nos
em rebanho.
Falta visão para promover o Made in
Portugal. Em vez disso, mal nos pomos numa prancha na crista da onda,
inchamos e, no caso dos sapatos, temos infelizmente mais casos de insolvência
como sucedeu com esta unidade. O valor acrescentado verdadeiramente falando, continua por estabelecer.
Desde há anos que o Turismo tomou conta
do País. Como se lucra com isso? Não existem indicadores. Mas há investimento em hotelaria. Tudo se lança de cabeça para a hotelaria e o turismo. Será que já se fez um estudo sobre as formas de tornar o turismo permanente?
Fui no passado, protagonista de
alguns episódios. Eis um deles:
Há cerca de doze anos o responsável pela
promoção de Portugal em Macau indicou o meu nome ao Turismo de Portugal de então
para organizar a exposição de Portugal em Macau, por ocasião da visita do então
primeiro-ministro. Estabelecido o contacto dispus-me a por os meus conhecimentos
de Macau e da China, e assim perguntei se tinham fotografias das iguarias
portuguesas, das praias, dos monumentos e das cidades, ao que me foi respondido
que já tinham os painéis organizados e que só queriam que eu os montasse e
traduzisse para chinês. Por outras palavras, eles é que sabiam.
Quando recebi os painéis via internet fiquei horrorizado. Aquilo eram uns cartazes muito intelectuais que diziam coisas como Vá Mais Fundo, mostrando uma colina verde absolutamente anónima. Tudo era assim. Eles lá sabiam e, à chegada do primeiro-ministro, estava um grupo de gente a dar-se ares de importantes, da secretária à restante comitiva que voltou de mãos a abanar. Ninguém visitou a exposição. Como era previsível.
Quando recebi os painéis via internet fiquei horrorizado. Aquilo eram uns cartazes muito intelectuais que diziam coisas como Vá Mais Fundo, mostrando uma colina verde absolutamente anónima. Tudo era assim. Eles lá sabiam e, à chegada do primeiro-ministro, estava um grupo de gente a dar-se ares de importantes, da secretária à restante comitiva que voltou de mãos a abanar. Ninguém visitou a exposição. Como era previsível.
Em Macau sei que os 35 milhões de
turistas que invadem os mais de 40 casinos deixam milhares de milhões dos quais
o governo cobra uma percentagem elevada que lhe enriquece os cofres. Tudo tem o
seu preço, porém, os ordenados são elevados comparados com os de Portugal e é
uma cidade que quase não exporta. Uma das concessionárias do jogo em Macau deu
um mês extra de bónus aos trabalhadores e aumentou-lhes os ordenados. Ganharão portanto 15 meses.
Casinos de dimensões inimagináveis
Mas a União Europeia não
permitirá certamente casinos desta escala. Porém não existe nenhuma criatividade no que
se faz. A banca, por exemplo, envergonha qualquer país, porque se nega a si mesma. Chegou-se
ao ponto de os depositantes terem de pagar para terem lá o dinheiro que rende
zero por cento. É a negação total agravada quando se anunciam lucros de 650milhões com um orgulho papalvo.
Montamos automóveis, mas não criamos nenhum. Até a SEAT é dos nossos vizinhos!
Montamos automóveis, mas não criamos nenhum. Até a SEAT é dos nossos vizinhos!
Por outro lado, num exíguo território administrado
anteriormente por Portugal, existia uma empresa local que detinha o monopólio do
jogo cobrando o governo de Macau uma percentagem sobre os lucros, que em muito
melhorou o nível de vida em Macau.
Porém, após a transferência de soberania, acabou-se com o monopólio e abriu-se o jogo à concorrência, tendo concorrido empresas de Las Vegas como a Sands, a Wynn e a MGM. Este ano de 2020 Macau será a cidade com o PIB mais elevado do mundo (mesmo que mal distribuído) ultrapassando o Qatar.
Embora seja questionável o preço a pagar por toda a riqueza, constata-se que a gestão portuguesa nunca foi capaz de pensar na liberalização do jogo, coisa perfeitamente óbvia, se reflectida retrospectivamente.
Porém, após a transferência de soberania, acabou-se com o monopólio e abriu-se o jogo à concorrência, tendo concorrido empresas de Las Vegas como a Sands, a Wynn e a MGM. Este ano de 2020 Macau será a cidade com o PIB mais elevado do mundo (mesmo que mal distribuído) ultrapassando o Qatar.
Embora seja questionável o preço a pagar por toda a riqueza, constata-se que a gestão portuguesa nunca foi capaz de pensar na liberalização do jogo, coisa perfeitamente óbvia, se reflectida retrospectivamente.
Sempre achei que a única forma de poder observar Portugal era estar fora dele, porque de facto os actores não se podem ver a si mesmos. É preciso estar na plateia e ser exigente.
Deveríamos estar no Futuro, mas continuamos atolados num Passado que se renova diariamente. Temos inúmeras potencialidades, mas o clima em que se vive é o do conflito. Veja-se o caso do hacker Rui Pinto, ou da Isabel dos Santos, veja-se como a Joacine Katar Moreira ocupa uma parte do conflito, ou o enterrado BPN ou o Juíz Rangel, ou as tricas dos futebóis e as conversas de comadres das televisões. É a Cristina Ferreira ou o Manuel Luís Goucha a mostrar o quanto as nossas televisões querem copiar o pior das televisões americanas. O conflito comanda 0 quotidiano porque a informação, esse estranho poder, precisa de viver de algo que é um chorrilho ao qual não interessa por fim.
As novas gerações não têm voz, ignoro se a terão enquanto tal. Entretanto, enquanto não conseguimos criar o nosso futuro, vamos vivendo de todos os folhetins que nos servem até que dois milhões de portugueses se levantem e digam basta.
Assim, o sistema obriga-nos, condena-nos a pensar em nós, e esperar que um dia a casa de todos nós se arrume.


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