A DEMOCRACIA DE HONG KONG


Quando em 1997 a República Popular da China recebeu de volta a colónia britânica de Hong Kong, fechava-se um capítulo de uma vergonhosa história começada pela Companhia das Índias Orientais, que iniciou a exportação de ópio para a China da dinastia manchu dos Qing (1644-1912). Posteriormente o imperialismo dos súbditos da rainha Vitória, iriam desencadear duas guerras para impor pela força o uso do ópio e a sua legalização. Já no século XVIII havia na província de Guangzhou (Cantão), mais de dez milhões de opiómanos. 

A táctica de enfraquecer um povo pelo estupefaciente

O fim da primeira Guerra do Ópio (1839-1842), pelo Tratado de Nanjing (Nanquim) viu a cedência de Hong Kong (香港) à coroa britânica.  Seguiu-se uma segunda Guerra (1856-1860) para impôr a abertura de mais portos ao comércio com o ocidente. Na mesma altura, em 1854, o Comodoro Perry da Marinha dos Estados Unidos fazia coisa semelhante, ao forçar, a tiros de canhão da sua frota, a abertura do Japão ao comércio com o ocidente.
Era assim que, pelos estupefacientes, pela guerra ou à bomba, o Oriente Extremo se iria abrir às garras das potências ocidentais e à sua gula, desvanecidas que estavam as memórias do comércio da Prata, de Macau com Nagasaki.
Hong Kong enquanto Colónia prosperou. Porém nunca existiu na sua história, qualquer assomo de democracia. Na zona elegante e exclusiva do Peak (o “pico” da montanha da ilha de Victoria) não era permitido aos chineses lá residirem. Também muito raros eram os chineses portadores de passaporte britânico. Tudo no mesmo estilo britânico que caracterizou a proibição em Xangai, de entrada “a cães e a chineses” na zona das legações que tinham invadido a China.
Perante isto e muito mais, poderá o mundo compreender a paciência, a sabedoria e sobretudo o domínio da noção de tempo daquela que agora é a segunda maior potência económica mundial.
Pude ainda assistir à transição de parte antiga da ilha de Victoria para uma moderna cidade que – apesar de se ter tornado na quarta praça financeira mundial – não deixou de albergar no seu seio um dos mais elevados preços de habitação do mundo, onde uma população de então seis milhões de pessoas aprendia colonialmente a falar inglês e a olhar o outro com olhos avaliadores das posses do observado (assim me senti bastas vezes) sem no entanto deixar de reconhecer que os britânicos tinham feito um bom trabalho colonial e, naturalmente, retiravam substanciais lucros de modo diferente dos tempos do ópio e do tráfico de cules (trabalhadores de baixo custo) mas igualmente abundantes.

Desde a década de 1960 que observei o número de chineses formados em Oxford ou Cambridge, mormente os barristers e os attorney. Ao contrário de Macau e do ensino do Português, a anglofonia incutia-se desde a infância, e essa mentalidade seria, em décadas posteriores, diversificada pela emigração estudantil para os Estados Unidos e para o Canadá. E assim se construíam gerações de chineses com vivências externas, que olhavam com superioridade para Macau (tantas e tantas notícias de má-fé publicadas pelo Morning Post de Rupert Murdoch e pelo Hong Kong Standard) e para a China, imaginando-se num outro patamar. Era a repetição da experiência da Índia, onde o inglês lá falado, sobretudo pelas classes ricas, procura mimar o sotaque britânico most definetly.
Porém o acordar tem sido doloroso, e não me custa a crer que a exigência da democracia é também fruto das tais gerações que se revêm mais nos valores americanos do que numa integração com a hoje poderosíssima mãe-pátria. E assim se vão esquecendo da origem de Hong Kong e do modo como os seus antepassados foram tratados pelo Ocidente.

Bandeiras coloniais de Hong Kong

Bandeiras americanas nos protestos

Mas as coisas não são isoladas. E a China jamais quererá que a comparem a cães. O ocidente, por seu lado, continua a querer atrapalhar a China. Não espanta pois que apareçam fotografias, nas manifestações, de bandeiras coloniais de Hong Kong ou americanas, nem os gritos (muitos sem dúvida ingénuos) de apelos à democracia, daquela enlatada e pronta a servir, único modo como a América a conhece e a quer impor ao mundo,  suporte de um capitalismo destituído de qualquer outra ideologia que não a do imperialismo e da política do capital. Para muitos a democracia é apenas o voto dito livre e a liberdade de expressão. É assim que a Walmart também vende armas e os actos de terrorismo interno contra escolas, supermercados e outros locais de grande concentração humana se sucedem no auto proclamado campeão das liberdades.
A China porém, tem sabido conter-se, conhecedora que é da política internacional e de que Hong Kong lhe pertence tanto quanto Macau.
Foi Deng Xiaoping, verdadeiro pai da moderna China, com a sua pragmática visão, quem urdiu o conceito de Um País dois Sistemas. E foi com esse pressuposto que Hong Kong foi absorvida em 1997, com elevado grau de autonomia, e Macau em 1999, com idêntica grau de auto-determinação. O alvo principal porém, é a Formosa, e tudo leva a crer que, a seu tempo, esta base do imperialismo americano seja absorvida por um sistema federativo, pacífico e sem guerras.
Para já, ali mesmo, do outro lado da fronteira com Hong Kong, está Shenzhen, o Silicone Valley da China, onde se fabricam os iPhones da Apple e a poderosa Huawei tem a sua sede. É mesmo um exemplo dos muitos que a China actual tem para apresentar ao mundo.
E, como que por ironia, chegou-me por mãos amigas, este artigo do South China Morning Post, agora propriedade do poderoso grupo privado chinês Alibaba (e venham falar-me em comunismo).
Shenzhen nasceu verdadeiramente em 1980 como primeira região económica da China do Primeiro Sistema, para se tornar numa megapolis com uma população estimada em 20 milhões, assim como dois Portugais numa cidade. Essas são as escalas da China desde sempre. E Shenzhen é uma das jóias da província de Guangzhou (Cantão) onde Hong Kong e Macau estão, zona com mais de 104 milhões de habitantes, que se encontra inserida nas directivas da chamada Grande Baía. E assim, do pé para a mão, a China traz à ribalta do mundo, mais um exemplo da sua política de desenvolvimento que em 40 anos catapultou o país para o segundo lugar da escala mundial, a provar que socialismo não é sinónimo de pobreza.
É preciso entender que os chineses têm uma forma muito própria, na sua cultura, de se propulsionarem. Fazem-no através da formulação de conceitos que rematam um raciocínio. A Grande Baía  é um desses casos. O outro ainda mais ambicioso, e que irá afectar uma mais que significativa parte do globo, chama-se Uma faixa uma rota. Herdeira da sua própria história, e de invenções tão fundamentais como o papel, a seda, o mecanismo da besta, a pólvora, a bússola, e a imprensa de caracteres móveis, para destacar as mais importantes para a história da humanidade, a China reinventou-se sobretudo a partir da queda do bando dos quatro. O chamado grupo de Xangai que no período da revolução cultural, sob a liderança de Jian Qing, a última mulher de Mao Zedong, realizou terríveis perseguições aos intelectuais chineses do próprio partido. 
Após a ascensão ao poder de Deng Xiao Ping nos finais da década de 1970, e face à situação de pobreza de um país centralizado, formulou pragmaticamente não apenas o princípio Um País dois Sistemas, mas igualmente um outro conceito fundamental: o da Economia Socialista de Mercado. A China abria assim, estrategicamente, a porta à gula ocidental, com objectivos bem precisos de quem se deixa saquear para aprender com os saqueadores. Velho e sábio engodo que o ocidente não soube perceber.
Hoje, como se sabe, a China está na liderança da Inteligência Artificial, e vai gerindo com sabedoria a guerra comercial que os EUA de Trump lhe movem com absurdas acusações de espionagem da Huawei. No fundo constitui um cumprimento ao poderio e à ameaça chinesas pelo mais imperialista dos países, aquele que mais espia em todo o lado, quer aliados ou adversários.  
De um ponto de vista económico a China detém a mais elevada percentagem da dívida externa americana, factor que usa com extremo cuidado, porquanto qualquer movimento desestabilizador deixaria os mercados mundiais em estado de alarme.
É este o panorama que os escassos seis ou sete milhões de chineses de Hong Kong, excluídos da nacionalidade britânica - ao contrário do que Portugal fez aos chineses nascidos em Macau – enfrentam perante uma realidade que teimam em ignorar: são parte integrante da República Popular da China e a democracia que defendem nunca impediu que uma parte da população vivesse em autênticas gaiolas, isto é, um beliche coberto de rede metálica ou nas chamadas shoe box apartments, que atestam bem do modo como foram governados na Hong Kong britânica e cujo legado não conseguiram subverter.

Uma gaiola a servir de casa e os direitos humanos. Quais?

Ao contrário, Shenzhen surge pujante, um modelo geral que a China não se envergonha em apresentar ao mundo. 
Daí que talvez o mundo, ao falar em democracia, devesse pensar melhor no que o termo significa. Pão, Paz, Educação, Saúde e, naturalmente, Habitação. Só assim se poderá falar fundamentadamente em Liberdade.
Xi Jingping já anunciou para muito breve a erradicação da pobreza na China. E quando um líder chinês faz um anúncio destes, não brinca. Na China as coisas são levadas muito a sério e embora os cerimoniais sejam diferentes dos do ocidente – quase assumem um carácter ritualístico – o que é certo é que a cerimónia, no conceito Confucionista, se reveste de um enorme poder vinculativo.
Um dia, talvez um dia, quando o ocidente souber (quiser) compreender a gesta chinesa dos útimos 50 anos, irá perceber que para os chineses o tempo tem uma métrica muito diferente. E quando o Tempo se distende, deixa de haver políticos para haver estadistas. Por muito que a imprensa ocidental especule e tente pintar de outro modo, a China segue, imperturbável, o seu caminho. 

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