AS CRIATIVAS INDÚSTRIAS
Diz o painel que são cursos de design criativo. E eu a pensar que o design já implicava criatividade.
Habitualmente, em Macau, a inércia instalada é interrompida com o lançamento de algumas iniciativas, como a campanha anti-tabágica, ou ideias, como a das indústrias criativas.
Se a campanha anti-tabágica foi avante, porque proibir é mais fácil e sempre permite que os dedicados guerreiros anti-tabágicos mostrem a sua dedicação à causa, já o resto não tem tido tanto êxito.
Sabe-se desde há muito que a R.P. da China quer que o Governo da R.A.E.M. encontre uma alternativa ao Jogo. O Reino Unido realizou em 2011, através de comércio com o mundo, a módica quantia de 15.5 mil milhões de libras, qualquer coisa como 198.28 mil milhões de patacas, em serviços e produtos das ditas Criativas Indústrias.
E talvez assim, no campo das hipóteses, se tenha encontrado, do pé para a mão, a solução para uma economia alternativa. As Indústrias Criativas seriam um dos segmentos da Economia de Macau que iria pedir meças aos milhares de milhões gerados pela indústria do jogo.
E, à maneira do Génesis, todos trataram de elaborar o que seria isso de Indústrias Criativas, ouvindo-se na distinta Assembleia Legislativa algumas das mais paradigmáticas intervenções sobre o assunto, merecedoras de registos para memória futura.
Por descuido, certamente, não foi explicado aos distintos tribunos que as Criativas Indústrias são, sobretudo, um conceito. Conceito que se baseia na rentabilização de actividades ligadas à geração e exploração do conhecimento e informação oriundas de actividades tradicionais com uma componente artística, pré-existentes ao conceito em si, como actividades tão tradicionais como (segundo a Economia Criativa de Howkins), a Publicidade, a Arquitectura, a Arte, o Artesanato, o Design Gráfico, Design de Moda, o Cinema, a Música, as Artes Performativas ou de palco, as Publicações em papel, Jogos de computador, a Televisão, a Rádio para citar as clássicas definições e que não precisam de estar etiquetadas nem agrupadas para funcionarem.
No entanto, o poder aqui depara-se com uma encruzilhada de escolhas: quererá que as receitas do Jogo continuem a encher-lhe os cofres, ou haverá fortes investimentos para a promoção de uma Economia verdadeiramente alternativa? E essa economia tem reais possibilidades de vingar?
Esta questão afigura-se-me pertinente, na medida em que se tem vindo a assistir à adesão entusiástica da multiplicação de souvenirs que, seguramente, não são nem indústria criativa nem alternativa económica.
As ilacções a extraír deste tipo de acções advém daquilo a que se convencionou chamar de cultura, a que eu preferiria acrescentar a desejável palavra "geral".
OS CONTEXTOS
Resumidamente, mesmo com toda a boa vontade do poder, não se vislumbra a possibilidade de ver os arquitectos de Macau poderem ter, nos clientes que têm, uma rampa de lançamento, tanto mais que os grandes projectos ligados ao COTAI são réplicas de outros ou, então, produtos de firmas internacionais, o que significa a ausência de protecção aos autores locais. Isto é, não existe nenhuma condição de protecção dos arquitectos locais para os mega projectos. Assim, no que respeita à arquitectura estamos, ao que parece, conversados.
Da Publicidade, algo que requer grande qualidade e síntese de comunicação, tratam os Casinos da sua, os organismos oficiais recorrem às mais inimagináveis infantilidades ao nível do anúncio de televisão e cartazes, e os outros... bem, das saunas é melhor não falar. Portanto, a segunda categoria da lista de Howkins não parece poder ter futuro, porque o gosto e o conhecimento, que são mais-valias num mundo de comunicação global, onde se exige pelo menos o domínio de duas línguas, parece encontrarem em quem pode, mesmo que pouquinho, um como que bloqueio na capacidade sequer de ver o que faz Hong Kong ou aproveitar os autores locais capazes de produzirem imagens e mensagens de qualidade.
No que diz respeito à Arte, há as galerias oficiais que não permitem a venda e as privadas, além de escassas, não chegam para criar mercado. Assim, de forma simplista, não há mercado e contam-se pelos dedos de uma mão os artistas que singram no exterior. Talvez porque ainda não haja uma verdadeira Escola de Artes de qualidade internacional, mas porque também não se convive com a diferença. Assim, fecha-se o capítulo das Artes com outra negativa.
Defina-se hoje em dia o Artesanato como uma actividade intelectual e física, onde o autor explora as imensas possibilidades dos materiais e processos para a produção de objetos únicos. Esta é outra das razões porque o artesanato se distingue da indústria. O que releva no artesão, é o cuidado, o amor e o brio que coloca no que faz, seja uma mala, um vestido ou uma peça de marcenaria, sem excluír outras formas de expressão artesanais onde a parte oficinal tem uma importância fundamental. Porém, o que se constata é que, salvo raríssimas excepções, em Macau já não se encontra um alfaiate ou um marceneiro dignos desse nome.
A economia livre que temos varreu quase por inteiro as profissões tradicionais, artesanais. Haverá hoje quem ainda saiba lacar como deve ser? Ou bordar à mão com fio de seda? Que futuro se reserva para os escassos artesãos e para o artesanato em si? A pergunta contém já a resposta.
O Design Gráfico, por seu lado, terá rompido fronteiras? A pergunta faço-a não no sentido da sua promoção, mas como etiqueta de indústria criativa. Não sei. Mas tenho as minhas dúvidas que, de um modo global, Macau seja um "Graphic Design Hub". Até porque (novamente) a maior indústria da R.A.E.M. tem os seus próprios gráficos. Serão também poucos os que trabalham para o exterior, até porque é necessária uma condição fundamental: que todos os designers trabalhando para o estrangeiro sejam bilingues e tenham a noção exacta de que isto das chamadas indústrias criativas é, mais uma vez, apenas um conceito.
A mesma questão se põe para a Moda enquanto design. A Moda é uma indústria tão poderosa como o cinema. Move milhões e requer uma estrutura verdadeiramente organizada. Para que se compreenda o que pretendo significar, refiro que, em plena crise, as receitas de 2013 do Grupo Armani foram de 2.091 mil milhões de Euros, qualquer coisa como 20.910 mil milhões de patacas.
Se bem que todas as caminhadas comecem pelo primeiro passo, será que Macau tem capacidade para ter uma expansão idêntica à da marca Marisfrolg, vinda de Shenzhen? O que faz com que o talento de Zhu Chongyun tenha conseguido criar 300 lojas no Continente, Singapura, Seul e Macau? Seguramente que o financiamento não vem na mesma escala. Criou-se uma empresa pura e dura, que é como se faz o Fashion Business. O que se sabe é que a Marisfrolg comprou a italiana Krizia. Espantoso não é?
Aqui, os empresários pouco ou nada sabem disto. O seu forte é coisa de terrenos e construção civil. A moda dá os primeiros passos, salvo raras excepções, no tocante ao lançamento, projecção e compreensão de que vestir pessoas requer maturidade suficiente para entender verdadeiramente o mercado.
Venha agora o cinema. Macau tem uma característica curiosa: é que vivendo tão perto de um dos maiores produtores de filmes do mundo, Hong Kong, o território permaneceu incólume ao "contágio", mantendo-se alheado das indústrias capazes de trazer alguma inovação. Ou, melhor dizendo, nunca conseguiu arrancar, nem mesmo fazendo parcerias. Todas as excepções confirmam a regra.
Em 2011, as receitas de bilheteira para 56 filmes "made in Hong Kong" (uma média de 4.6 filmes por mês) foram de 1.379 mil milhões de dólares de Hong Kong. A história cinematográfica de Hong Kong remonta ao princípio do século XX e encontra no pós-guerra do Pacífico, com a vinda de capitais e artistas do continente, um arranque do chamado cinema Cantonense, que irá rivalizar com os filmes em Mandarim da Shaw Brothers e da sua rival Cathay. Mais tarde a Golden Harvest, nos anos 60, produziria os filmes de Bruce Lee, que iriam lançar Hong Kong para uma ligação a Holywood. Hoje a indústria cinematográfica da República Popular da China com nomes como Zhang Yimou, Ann Hui, Chen Kaige, Tsui Hark sem contar com Ang Lee, estão num patamar superior em termos de qualidade.
Em Macau está tudo por fazer. Não existe indústria cinematográfica, tout court. Sejamos exigentes.
Em termos de televisão, a TDM é, no seu geral, herança da vontade política de um governador. A televisão que, apesar de alguns esforços, sobrevive num estado arcaico por comparação com as colegas de Hong Kong, funciona, no canal português, mais como um retransmissor da RTP internacional.
Apenas as Edições em papel, nomeadamente as revistas que capitalizam no ambiente do jogo, produto da iniciativa privada de jornalistas empreendedores, têm agitado o ambiente local.
Mais haveria para dizer, sobre a Música por exemplo. Mas se com o Festival de Música de Macau na sua XXVI edição ainda não surgiu nenhuma editora ou estúdios de gravação profissionais, se ainda se não sabe se se pensou na realização de um Festival Internacional de Rock, se ainda se não encontrou poiso para o Clube de Jazz nem se reactivou o Festival de Jazz de Macau, infelizmente interrompido, é porque algo precisa de ser feito.
Perante o profissionalismo, a eficácia e eficiência no modo como a principal indústria de Macau se tem destacado, lamento constatar que não vislumbro nenhum futuro para as chamadas de criativas, até porque a própria cidade se tornou em algo que me lembra a ficção científica.
É uma cidade que está voltada de costas para os seus habitantes. E como a cidade é um organismo vivo, se este está intoxicado, com artérias bloqueadas, uma péssima circulação viária com permanente aumento de carros, de rendas que invalidam sequer tentativas de lançamento sustentado das ditas Criativas Indústrias, a pergunta que surge é: então como é?
Agora que demos uma pequena voltinha sem abordar outros temas como a própria definição mais conclusiva das indústrias criativas, e olhando para o deserto, apetece dizer, como o grilo falante: Indústrias Cri-cri-cri-quê?
É imprescindível que hoje em dia Macau possa deter uma das mais rápidas redes de internet do mundo. Não existe uma justificação para que não seja assim. Esse melhoramento indispensável poderia ajudar a transformar Macau num "Hub", numa Plataforma cibernética competitiva, bem como a aquisição de outros instrumentos de que já venho falando há mais de 20 anos.
Só a criação de recursos intercederá em favor da globalização de territórios de superfície limitada, como é o caso de Macau. Assim sendo, repito que não existe uma justificação plausível que a Banda Larga existente não tenha o potencial, o fluxo que deveria ter. Para lá desta falha e paradoxo, pergunto-me porque é que os bancos locais não oferecem à população um produto fundamental para o E-Commerce, chamado de Conta de Comerciante, mais vulgarmente conhecida por Merchant's Account. Paradoxo factual, porque numa cidade que movimenta milhares de milhões não se olha um pouco mais para o lado e se implementa um instrumento fundamental para o Comércio Electrónico. Nem sequer existe o PayPal.
Daí que as carências, desde há muito, sejam muitas e as vistas poucas, talvez porque a abundância deslumbre. Mesmo quando o saber não ocupa espaço.
Também não se vislumbra que a indústria de jogos de computador tenha lugar em Macau. E é pena. Os últimos dados cifram-na como facturando mais do que o cinema. E, como tudo o que é virtual, também não ocupa espaço.
Adenda
Entretanto, e desde este escrito inicialmente datado de 26 de Fevereiro de 2018, há cinco anos, tem-se vindo a falar cada vez mais na real implementação da estratégia da utilização maximizada dos recursos de 11 cidades da província de Guangdong, onde Macau se insere. São elas Cantão ou Guangzhou, a capital da província, Shenzhen, Zhuhai, Foshan, Dongguan, Zhongshan, Jiangmen, Huizhou e Zhaoqing, além de Macau e Hong Kong, conforme mapa que junto.
Adenda
Entretanto, e desde este escrito inicialmente datado de 26 de Fevereiro de 2018, há cinco anos, tem-se vindo a falar cada vez mais na real implementação da estratégia da utilização maximizada dos recursos de 11 cidades da província de Guangdong, onde Macau se insere. São elas Cantão ou Guangzhou, a capital da província, Shenzhen, Zhuhai, Foshan, Dongguan, Zhongshan, Jiangmen, Huizhou e Zhaoqing, além de Macau e Hong Kong, conforme mapa que junto.
O minúsculo pontinho vermelho junto ao mar é Macau e a manchinha vermelha mais à direita, é Hong Kong.
Enquanto Macau se entretém com a procura de compreensão sobre as Criativas Indústrias, o poder central formulou o princípio de cooperação chamado de Grande Baía, delineado no mapa a vermelho.
Da sua leitura se poderá compreender como o desenvolvimento irá trazer mais riqueza num país onde os bilionários já não ligam a automóveis mas sim a jactos particulares, alguns dos quais aterram no aeroporto de Macau para jogarem.
14 de Abril de 2023.
Da sua leitura se poderá compreender como o desenvolvimento irá trazer mais riqueza num país onde os bilionários já não ligam a automóveis mas sim a jactos particulares, alguns dos quais aterram no aeroporto de Macau para jogarem.
14 de Abril de 2023.


Comentários
Enviar um comentário